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Por que a gente perde o contato com os amigos da faculdade

Durante quatro ou cinco anos aquelas pessoas foram sua vida inteira: as mesmas aulas, o mesmo bandejão, o mesmo trabalho em grupo de madrugada, a mesma república, os mesmos aniversários. Três anos depois de formado, restam curtidas e um grupo silencioso. O contraste é tão grande que parece que alguém falhou — e normalmente ninguém falhou.

Aquela amizade era feita de presente compartilhado

A convivência da faculdade tem uma característica que quase ninguém percebe enquanto está lá dentro: ela é sustentada por um presente comum e muito intenso. Vocês estavam na mesma matéria, na mesma prova, na mesma dúvida sobre o futuro, na mesma falta de dinheiro. O assunto era infinito porque era o mesmo assunto.

Quando esse presente comum acaba, a conversa perde o chão. Cada um passa a viver uma coisa diferente que exige explicação para ser contada, e explicar dá trabalho. Não é frieza; é que sumiu aquilo que fazia a conversa acontecer sozinha.

Muita gente era amiga da turma, não da pessoa

Esta talvez seja a parte mais difícil de admitir, e ela explica bastante coisa. Numa turma grande, boa parte dos vínculos existe em grupo. Você conviveu diariamente com vinte pessoas, mas com quantas delas você teve conversa a dois, marcada, fora do contexto coletivo? Para a maioria, a resposta é: com três ou quatro.

Quando o grupo se dissolve, os vínculos que só existiam dentro dele não têm como continuar, porque nunca chegaram a existir sozinhos. Isso não diminui o que foi vivido. Só significa que o que acabou foi a convivência, e não uma amizade individual que teria sido rompida.

A moldura sai toda de uma vez

Diferente de outras fases da vida, a formatura tira a estrutura inteira num único dia. Não há redução gradual: de uma semana para outra, some o encontro diário, some o calendário comum, some o lugar físico. Trabalho novo, horário novo, muitas vezes cidade nova.

E o primeiro emprego costuma consumir uma quantidade absurda de energia. Aquele período em que a pessoa chega em casa sem querer falar com ninguém coincide exatamente com o momento em que a amizade da faculdade mais precisaria de iniciativa para sobreviver. É um encontro infeliz de circunstâncias, e ele acontece com quase todo mundo.

As vidas divergem depressa

Nos cinco anos seguintes, pessoas que estavam absolutamente na mesma situação passam a viver realidades distantes. Um foi para concurso, outro entrou numa multinacional, outro voltou para a cidade dos pais, outro abriu um negócio, outro teve filho aos vinte e cinco.

Aparece aí um assunto que raramente se diz em voz alta: a diferença de dinheiro. Quando um está juntando para o aluguel e o outro sugere um restaurante caro, a distância vira concreta e constrangedora. Muita amizade dessa fase esfria por esse motivo sem que ninguém nomeie — é mais fácil não marcar do que explicar.

O grupo sobrevive ao grupo

Quase toda turma tem aquele grupo no celular que continua existindo, com trinta pessoas e três mensagens por ano — normalmente parabéns de aniversário e o aviso de um casamento. Ele funciona como uma sala vazia que ninguém fecha.

Esse grupo dá uma ilusão útil e enganosa: como todo mundo continua ali, parece que o contato existe. Não existe. Estar no mesmo grupo não é o mesmo que ter falado com alguém, e é comum passar cinco anos com a sensação de contato sem nunca ter trocado uma frase a dois.

Vale notar, sem drama, que o grupo continua sendo uma porta aberta. Uma mensagem no privado para alguém que estava lá dentro é quase sempre recebida como surpresa boa, justamente porque ninguém faz isso.

O que costuma dar certo depois

As amizades de faculdade que atravessam a década quase nunca são as do grupão. São aquelas duas ou três em que existiu uma relação individual — conversa a dois, confidência, algum momento fora do coletivo. É por isso que a tentativa de manter a turma inteira raramente funciona e a escolha de duas pessoas funciona bem.

Outra coisa que costuma ajudar é aceitar que a amizade mudou de matéria-prima. Ela era feita de convivência; agora precisa ser feita de curiosidade pela vida do outro, que é uma coisa diferente e mais lenta. Perguntar o que a pessoa está fazendo hoje rende mais do que relembrar histórias antigas pela quinta vez.

E se você olha esse período com um pouco de saudade e a impressão de que perdeu todo mundo, vale considerar que provavelmente não perdeu. Boa parte dessas pessoas está com a mesma sensação, olhando as mesmas fotos, achando que passou tempo demais para escrever.